1 Decisão.

Era só mais uma consulta, até a médica nos dizer:”Temos que falar sobre a amniocentese”

” – O quê?” nem tal coisa nos passou pela cabeça e não era por falta de informação era porque a decisão ja estava tomada.

Mesmo assim a médica explicou todos os riscos acrescidos da minha gravidez, o facto de ter 2 placenta de 1 delas ter 2 bebés, de ser o único exame possível, pois as análises bioquímicas, no caso das gravidezes de múltiplos, não são fiáveis, da situação do bebé n1…

Mas nós nunca iríamos ser capazes de decidir, caso fosse necessário, sobre a vida de um dos nossos filhos.

Escolhemos continuar a acreditar, que tudo estava bem.

Desistir não era opção!

Mudança de Nome…

A minha realidade semanal passava por ir 2 vezes, por semana, ao Hospital Santa Maria, a sensação que tinha é que conhecia todos e que todos me conheciam só tinha mudado de nome. Era a ” mãe dos trigêmeos” ou a “paciente da gravidez trigemelar” mas eu não me importava porque tinha muito orgulho do meu estado e gostava de falar dele e partilha lo nem que fosse para dar esperança e ânimo a quem me invejava secretamente.

Conheci verdadeiras super mulheres e homens com realidades incríveis e com uma resiliência que poucos têm e que encheram a minha “bolha de felicidade” de força e coragem.A esses disse o meu nome:”Antónia, a mãe dos trigêmeos”

6 feira…

O meu coração estava na boca, perdi a conta das vezes que fui à casa de banho e só queria a minha mãe…

Finalmente começou, o ar sério da médica e do Carlos a olhar para aquele ecrã, os sons que a médica fazia, que para mim eram indicadores que as coisas estavam mesmo mal, o silêncio dentro da da sala. Tudo me fez medo.

Eu não vi nada,não pensei nada…

Ali naquela sala tive a primeira “conversa” com o meu filho Ricardo e pedi-lhe que fosse forte que confiasse em mim. Foi ali que descobri um sentimento avassalador chamado AMOR INCONDICIONAL.

Depois de mais de 1 hora de exame, finalmente, um sorriso, acho que foi a primeira vez que vi aquela médica sorrir, e ouvi aquilo que mais desejava:”Aparentemente já passou o susto, está tudo normal. Mas vai ter que descansar já não pode trabalhar, é uma gravidez de risco. Vamos fazer um acompanhamento mais frequente.”

“Tome a fotografia do malandro”

Bebé n1 – Ricardo

3 dias = 300 anos

As horas não passavam, não quis rebentar a bolha de felicidade de mais ninguém, por isso não partilhei esta dor com ninguém.

Éramos só nós os dois ou melhor nós os cinco… e as dúvidas, os medos e as incertezas.

Só me restava fazer, o que nunca se deve fazer, fui para a Internet pesquisar. E o medo, as dúvidas e as incertezas aumentaram, aumentaram, aumentaram e pela 1 vez na minha gravidez feliz passei 3 dias a vomitar.

A realidade

Estávamos no dia 8 de Agosto e era só mais uma consulta, só mais uma ecografia, das minhentas que fazia, e que até aquela altura achava exageradas…

A médica que fazia as ecografias, dada a poucos sorrisos e a conversas desnecessárias, nesse dia estava ainda mais séria e demorou ainda mais tempo a fazer o exame, eu sabia que algo se passava…. Então veio o discurso:”Temos um problema, o bebé n1 não está a crescer, vamos ter que acompanhar esta situação, já lhe tinha falado desta possibilidade pelo facto de ter membrana umbilical única,…”

Deixei de ouvir tinham rebentado a minha “bolha da felicidade” sai daquele exame sem conseguir dizer nem perguntar nada só voltei a ouvir… ” 6 feira quero a cá, até lá descanso”…

Na consulta um novo “despertar de realidade”,não me lembro da cara da médica, sei que era nova e que sem lhe pedir nada me explicou tudo o que não tinha conseguido perguntar e que deveria saber.

Aquela médica devolveu me a esperança e a bolha encheu um bocadinho, pelo menos até 6 feira.

Gravidez Feliz!

Vivi a minha gravidez de uma forma tão plena e tranquila que não tive enjoos, azia, pés inchados, diabetes…

4 meses

Continuava protegida pelo manto da felicidade. E apesar de em todas as consultas me tentarem alertar para os riscos, complicações e dificuldades, agora sei, que escolhi não escutar porque não queria que nada belisca se a minha felicidade.

Mas um dia a realidade arranja forma de se fazer ouvir…

Dar a notícia…

O plano era só contar a algumas pessoas….

Mas não passou disso mesmo.

A minha mãe, foi a primeira a saber porque tinha ido connosco, e quando soube só repetia:”Não se preocupem vai tudo correr bem, eu ajudo no que puder”

Não houve más reacções porque todos sabiam do quanto queríamos ser pais e o que já tínhamos passado.

Preocupação talvez tenha sido o sentimento mais presente mas não a mim. Eu estava protegida pela maravilhosa bolha do “doce sabor da ignorância” que me protegeu quase até à data do nascimento.

A revelação…

Finalmente tinha chegado o dia de ver o meu bebé e de ter a certeza que era real.

A minha mãe quis ir connosco para nos apoiar, no caso de voltar a correr alguma coisa mal.

A ansiedade era tanta que de 5 em 5 minutos estava a fazer xixi chegou ao ponto de me sentar numa cadeira próxima da porta do WC.

A médica chamou, eu já tinha feito análises, e começou logo a fazer o exame porque ela achava que estava alguma coisa errada…

Finalmente comecei a ouvir um tambor descontrolado e vi um pontinho na tela…. Era o meu filho.

Eu e o meu marido só queríamos ouvir mais e ver outra vez quando a médica, de forma rude, nos pede silêncio porque precisava ter a certeza do que estava a ver.

Foram minutos mas para mim horas, com levantar barriga, baixar barriga e finalmente diz…

“Olhe bem para o ecrã, este pontinho é o seu bebé n1, este outro pontinho, dentro do mesmo saco, é o seu bebé n2…

E eu pensei:” porque é que ela está a contar…”

E ela continua… “e está a ver este aqui, muito tímido, é o seu bebé n3. Parabéns está grávida de Trigêmeos”

E o meu coração transbordou e assim de 2 passamos a 5.

Estávamos no dia 22/7/2009

E a aventura começou

Finalmente positivo.

Não consegui dormir, a farmácia não abriu a horas, não tinha vontade de fazer xixi e quando finalmente consegui fazer o teste os minutos transformaram se em anos…. Até que finalmente surgiu o traco rosa da felicidade….

E quando fui acordar o meu marido a contar a novidade a primeira coisa que me diz é… “viste bem as instruções”

Pela 1 vez tinha a certeza, que me faltava nas outras vezes, de que tudo ia correr bem e que finalmente ia ser mãe.

Estávamos no dia 17.06.2009

post