Sem bebés

Estar num quarto rodeada de bebés e ao lado da tua cama estar 3 berços vazios é uma sensação indescritível.

Ouvir os sussurros das visitas das outras mães, ouvir dizer as parecenças dos bebés, ouvir o choro….causou me uma dor tão grande que havia alturas que só queria tapar a cabeça e fingir que não estava ali.

Eu ainda não tinha visto os meus bebés, tocado neles, sentir me mãe e isso estava a destruir me.

Mas as enfermeiras diziam que tinha que descansar e que tinha de ter paciência.

O Carlos bem me trouxe fotos, estava todo babado, e cheio de esperança com a escolha que tínhamos feito. Tínhamos salvo os nossos filhos!

Mal sabia ele o que estava para vir.

Parto

Estava a sala cheia de gente, 3 pediatras, 6 enfermeiras isto só para os bebés fora o anestesista, a médica que me ia fazer o parto e 2 enfermeiras que iam assistir.

E eu que no meio de tanta gente me sentia sozinha, com frio e com medo.

O anestesista foi o primeiro a falar comigo, explicou me toda a parte técnica e depois olhou bem para mim fez me uma festa na cabeça e disse :”coragem, vai ver que vai correr tudo bem”.

Depois disse piadas, perguntou me coisas sobre a gravidez e reforçou a dose pois estava tão nervosa que a primeira não foi suficiente e quando iam começar fechei os olhos.

Acordei com o som do choro do um dos meus bebés mas não o pude tocar, só o vi de longe e logo foi absorvido pela sua equipe de médicos e a seguir outro e a história repetiu se mas o choro do 3 não surgiu e eu entrei em pânico.

Ainda meio groge da anestesista perguntei pelo meu bebé, e a resposta de alguma forma me tranquilozou

“Ele já foi para cima mas está bem tendo em conta o quadro”

Respirei fundo… A primeira batalha estava ganha, estavam todos vivos.

A noite mais longa da minha vida.

Estive numa sala com mais 3 grávidas, o única coisa que tínhamos em comum era que iríamos ser mães.

Entre gritos, CTGs, conversas paralelas e entradas e saídas de enfermeiros começou se a notar que eu era quem mais “visitas” tinha.

Eu só queria estar sozinha ou com o meu marido, eu só queria que os meus bebés estivessem bem, eu só queria que aquilo fosse um pesadelo.

Sentia me sozinha e com medo.

As enfermeiras sempre preocupadas pois segundo o CTG estava com contrações mas a mim não me doía nada, só o coração.

Por volta da meia noite o Carlos veio ver me, não conseguia estar em casa, sabia que precisava dele.

Foi essa a força que necessita e o pouco tempo que estivemos juntos foi o suficiente para fazermos um pacto – “de nunca desistir”.

Nessa noite não dormi só olhava para o CTG com a ilusão que conseguia controlar o desfecho daquele pesadelo.

Finalmente às 10h50 levaram me para a sala de partos.

Era agora…

Escolher… Como se isso fosse possível.

As vossas opções são :

1- Continuar a gravidez até as 30 semanas e provavelmente o bebé n1 (Ricardo) não sobrevive e como partilha a placenta com o bebé n 2(Diogo) existe uma forte possibilidade de o perder também.

2-  Fazer nas só os que estão na mesma placenta e esperar que o outro(Frederico) se aguente mas aviso a que o risco de aborto é muito grande.

3 – Fazer nascer os 3 e esperar que sobrevivam.

Não sei descrever o que senti mas garanto que a dor que sentia era física  achei mesmo que não ia suportar e ainda me doeu mais quando olhei para o Carlos e vi que também a estava a sentir.

Foi as palavras da Dra Antonieta que de alguma forma me chamaram à realidade e que de alguma forma me/nos ajudaram. Pela primeira vez tratou me pelo meu nome e disse:

“Antónia eles já Fizeram a maturação pulmonar, têm um bom peso, têm boas hipóteses”

Antes mesmos das palavras da Dra Antonieta a minha decisão já estava tomada. Fi lo sem consultar o Carlos, pois numa perspectiva muito egoísta só eu podia decidir pois tinha sido eu a falhar.

“Vão nascer os 3,não consigo nem quero escolher entre os meus filhos”

O Carlos sorriu e disse “Sem dúvida, nascem os 3 e seja o que Deus quiser”

Estivemos durante mais algum tempo a discutir os pormenores práticos mas não me consigo lembrar de nada só do meu desejo de sair dali e abraçar o Carlos.

Precisava do meu momento de desespero e nem isso pude ter.

Como tal tive que me despedir do meu marido ali mesmo, porque ia ser levada para a sala onde ficaria até fazerem o meu parto e ele tinha que tratar da parte prática (roupa, informar o trabalho, etc)

Tínhamos que seguir, em frente, a nossa dor não era importante tínhamos que nos concentrar nos nossos filhos.

E assim fiquei.

Escolher!!!???

Fomos levados para uma sala onde estava outros 3 médicos, 2 deles estagiários, a Dra Antonieta, eu e o Carlos.

A Dra Antonieta começa por nos dizer que a situação do Ricardo se tinha complicado muito e que achava que tínhamos que intervir já enquanto era possível.

Depois começa o discurso estatístico e mais racional que já tinha ouvido até à data(e já tinha ouvido alguns desde o início desta aventura). Confesso que só me apetecia manda la calar e dizer que era dos meus filhos que estava a falar e que eu era a mãe que estava ainda a assimilar o facto de um dos seus filhos poder não sobreviver.

Quando terminou a primeira “análise estatística” esperou alguma reacção ou comentário meu ou do Carlos mas perante o nosso ar atónito e chocado achou que o melhor era não perder mais tempo e disse as palavras que durante muito tempo me causavam pesadelos e que passei a detestar…

“Vão ter que escolher…”

Medo!!!!

A minha estadia no hospital só durou 3 dias mas as consultas passaram a ser mais frequentes, não podíamos correr riscos…

No dia 24 quando fui novamente fazer a Eco notei que a situação estava muito complicada pelo ar sério com que no final da eco a Dra. Antonieta me disse “Não vamos poder esperar mais… Vou chamar uma colega e vamos ter que conversar…”

E de repente abriu se um buraco e comecei a cair.

Estivemos à espera cerca de 45 minutos, sem saber o que pensar, o que dizer.O Carlos só dizia que ia tudo correr bem. Mas a frase saia de forma tão automática que agora tenho a certeza que era mais para o convencer a ele do que a mim.

Eu só pensava no que poderia ter feito diferente e só sentia culpa e medo, muito medo.

Não conseguia pensar, falar nem chorar mas a minha bolha de felicidade tinha rebentado e eu sabia que não havia forma de voltar a enche lá.

Fluxo Reverso da artéria umbilical….

17.Novembro – 27 semanas o diagnóstico não era animador e só o nome assustava, nem coragem tinha para perguntar. Optei por me organizar mentalmente primeiro e depois delinear o melhor plano.

Mas primeiro desesperei me…

Agradeço todos os dias a médica que me fazia as ecografias. A Dra. Antonieta salvou várias vezes os meus filhos. Graças ao seu profissionalismo, à sua atenção, à sua seriedade conseguimos detectar os problemas e encontrar a melhor solução.

Confiava totalmente nela, sabia que podia confiar,por isso quando me disse “-É sério vais ter que cá ficar não vamos perder nenhum dos bebés agora que falta tão pouco”

E fiquei… E confiei..

“A ficha caiu… “

Apesar de todas as “surpresas” sempre acreditei que ia conseguir chegar às 32 semanas, apesar dos medos sempre acreditei que tudo ia acabar bem, apesar de todos os alertas sempre achei que nada poderia correr mal.

Mas hoje ao chegar do hospital… A ficha caiu… Tive que pensar naquilo que qualquer pai se recusa a pensar, a possibilidade de perder um filho.

Não consigo descrever a dor que senti, não consegui comer, falar, dormir.

Não era justo!!!! E eu recusava me a aceitar por isso fiz a única coisa que sabia…

Lutei!!!!

Ricardo

25 semanas+5 dias ecografia de rotina, agora sempre com o coração nas mãos, novo susto…

“O Ricardo parou de crescer” e pronto o meu coração parou de bater… “Temos que ver o que se passa, nascer agora não era o ideal”

” tenha calma ele vai conseguir…”

É estranho e difícil de descrever a dor que senti, era física e tão intensa que não conseguia respirar.

Não me parecia junto que um bebé tão pequenino já tivesse que lutar pela sua vida.

Eu estava a falhar no meu papel de mãe não estava a conseguir cuidar dos meus filhos.

E essa era a pior sensação do mundo!!!

1,2,3 mexem todos de uma vez…

A forma que eu tinha de saber se os meus filhos estavam bem era senti Los mexer. Ao contrário da maioria das grávidas eu não fazia CTG pois em múltiplos não é fiável.

Então para mim o facto de se mexerem era sinal que estava tudo bem.

Havia uma rotina de animação que tinha o seu auge, quando o Carlos chegava a casa e falava para a minha barriga. Era tal o reboliço que tinha que me sentar.

É muito engraçado olhares para tua barriga e veres pés e mãos como se estivessem a fazer festas.

Sempre que comia uvas brancas, que passou a ser a minha fruta preferida, os pequeno faziam uma festa e a minha barriga parecia uma roda viva.

E era assim que passava os meus dias na roda viva da emoção de ser mãe de Trigêmeos